Leituras

Uma das coisas que mais gosto de fazer é sentar-me a ler um bom livro. Ultimamente temos tido alguns fins-de-semana com sol por cá e eu tenho aproveitado para me esticar no jardim depois do pequeno-almoço a apanhar sol e a ler o livro de que vos falo hoje: Os Memoráveis, de Lídia Jorge.


O livro trata de uma jornalista portuguesa em Washington a quem é proposto fazer uma reportagem sobre o 25 de Abril de 1974 em Portugal, que é considerado um momento único na História. Já em Lisboa, Ana Maria (a jornalista) recruta dois antigos colegas de curso e os três entrevistam vários protagonistas ou testemunhas do Golpe de Estado – os tais Memoráveis que dão título ao livro.

No decorrer das entrevistas, compreendemos o percurso (e os estados de espirito) desde a Revolução até aos dias de hoje, contado através de um grupo que viveu esses momentos de perto e que espelha, por sua vez, uma boa parte da sociedade portuguesa – um relato de entusiasmos, desilusões, vitórias, derrotas…

Paralelamente a estas entrevistas, conhecemos também a história mais pessoal de Ana Maria, que resume em si o que vemos nos memoráveis.

Adorei este livro. Para além de ter o poder de me desligar do quotidiano, penso que mostra, através da ficção, diferentes perspectivas sobre Abril: o entusiasmo inicial, seguido da confusão inerente ao estabelecimento da Democracia e todos os altos e baixos que Portugal tem vivido desde então – mas com uma linha de esperança em fundo, como quem diz “sim, houve (e há) problemas, mas valeu a pena”.

O que achei mesmo curioso em Os Memoráveis, foi o facto de Lídia Jorge usar alcunhas para aqueles intervenientes que toda a gente conhece, e como que “personagens-tipo” para agrupar aspectos de vários intervenientes reais: Charlie 8, El Campeador, Umbela, Bronze…

Antes de eu comprar o livro, o meu Pai, que o tinha começado a ler em finais de Abril, disse-me que eu tinha de ler, até porque a personagem principal lhe tinha lembrado de mim – vim a descobrir uns dias depois que isso tinha a ver com a ligação ao 25 de Abril: Ana Maria tem uma ligação directa com o Golpe de Estado e os seus intervenientes, tendo sido exposta desde pequena à importância desses acontecimentos (e mais não conto para não estragar a surpresa!). 
De facto, eu e a Revolução estamos ligadas desde que me lembro! Não só cresci numa família que sempre me ensinou a importância daquele momento na conquista da Liberdade, explicando o antes e o depois; como vários momentos na minha história pessoal podem ser ligados à Revolução: o meu pai esteve na tomada da RTP; foi a trabalhar na campanha de dinamização cultural do MFA que os meus Pais se conheceram; uma das primeiras memórias que tenho é de estar numa Manif do 25 de Abril com a minha mãe e a minha avó paterna; e juro que uma das primeiras músicas que aprendi a cantar foi o Somos Livres de Ermelinda Duarte (a canção da gaivota). A lista podia continuar…

Não sei se isto acontece a mais alguém, mas a mim basta-me um pequena semelhança com a personagem principal de um livro, para ficar ainda mais embrenhada na história e ler o livro com mais gosto, e mais rápido; e aqui aconteceu exactamente isso. Se também vos acontece, acusem-se!

Só fiquei com pena, ao acabar o livro, de não haver um maior desenvolvimento da história dos colegas, que são personagens secundárias, é certo, mas sobre os quais teria gostado de saber mais.

No geral gostei imenso do livro, adorei o subtexto de esperança, o código (quase) secreto para resolver com as alcunhas dos Memoráveis ou nomes de ruas não existentes em Lisboa…

Como todos os livros este tem o poder de nos transportar: acreditem, umas horas em Lisboa no meio de uma semana de trabalho em Londres, ainda que na minha imaginação, foram muito bem-vindas!

Já leram este livro? O que acharam? Deixem opiniōes nos comentários, aqui ou no Facebook, e se tiverem sugestōes de livros, sou toda ouvidos!

T xx

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